Quarta-feira, 19 de agosto de 2026

57% dos brasileiros vivem em apenas 15% do território, mostra estudo sobre a Mata Atlântica

today19 de agosto de 2026
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Mais de 116 milhões de brasileiros vivem concentrados em apenas 15% do território nacional. Um novo estudo mostra que 57% da população está na Mata Atlântica — bioma sob forte pressão ambiental — e revela que regiões como Sudeste e Sul chegam a concentrar até 85% de seus habitantes dentro desses limites. O resultado, baseado em dados do Censo Demográfico de 2022, revisa estimativas anteriores, que variavam entre 60% e 72%, frequentemente sem explicitar os critérios metodológicos utilizados.

O artigo, elaborado por pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e publicado este mês nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, apresenta, pela primeira vez, uma estimativa com método transparente e replicável, permitindo maior precisão no planejamento de políticas públicas e estratégias de conservação.

Embora ocupe cerca de 15% do território nacional, a região do bioma Mata Atlântica concentra a maior parte da população brasileira, incluindo algumas das maiores metrópoles do país. Isso não significa que essas pessoas vivam em áreas de floresta: a maior parte da população está concentrada em cidades e áreas urbanizadas situadas dentro dos limites do bioma.

O estudo mostra que essa concentração é especialmente intensa nas regiões Sudeste e Sul. No Sudeste, entre 83% e 85% da população vivem dentro dos limites do bioma, dependendo do critério geográfico adotado. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais reúnem grande parte desses habitantes.

Esse padrão revela que a Mata Atlântica não é apenas um hotspot de biodiversidade, mas também um bioma profundamente urbano, diretamente associado ao cotidiano da população — do abastecimento de água à regulação do clima nas cidades.

A combinação entre alta densidade populacional e área limitada intensifica a pressão sobre os recursos naturais. “Com mais de 116 milhões de habitantes distribuídos em uma área relativamente pequena, a Mata Atlântica enfrenta desafios como escassez hídrica e degradação de bacias hidrográficas, fragmentação florestal e vulnerabilidade a eventos climáticos extremos”, explica a pesquisadora do INMA Mileide Formigoni.

Os dados reforçam que a conservação do bioma está diretamente ligada à qualidade de vida da população brasileira, já que a Mata Atlântica fornece serviços essenciais como abastecimento de água, proteção do solo, regulação climática e polinização.

O estudo também evidencia fortes desigualdades regionais. Cerca de um terço dos brasileiros que vivem na Mata Atlântica está concentrado no estado de São Paulo. O Sudeste reúne mais da metade da população do bioma. 

Mudanças nos números
Um dos principais diferenciais do estudo está na metodologia. O artigo mostra que muitas estimativas amplamente divulgadas ao longo das últimas décadas não detalhavam como os cálculos eram feitos, o que comprometia sua confiabilidade.

Para evitar distorções, a nova pesquisa adotou um critério rigoroso: uso de dados oficiais do Censo 2022; cruzamento com dois limites reconhecidos do bioma (Lei da Mata Atlântica e mapa do IBGE); e inclusão apenas de municípios com 50% ou mais de seu território dentro do bioma, evitando superestimativas.

“Esse procedimento reduz erros comuns, como considerar municípios com presença mínima do bioma como totalmente inseridos na área”, explica o pesquisador Sérgio Lucena Mendes.

Ao oferecer uma estimativa atualizada e metodologicamente consistente, o estudo contribui para qualificar o debate sobre conservação e uso sustentável da Mata Atlântica. Os resultados indicam que mais da metade da população brasileira depende diretamente dos serviços ecossistêmicos do bioma, reforçando a necessidade de políticas integradas que observem conservação ambiental, desenvolvimento urbano e adaptação às mudanças climáticas.

Acesse o artigo: https://www.scielo.br/j/aabc/a/8G9fDxWtm8d4B6tXxKCbN7x/?lang=en

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