“É preocupante!”, reage secretário à proposta da Cesan de jogar esgoto tratado no mar

today10 de julho de 2023
remove_red_eye867

Cláudio Denicoli disse durante reunião da Comissão de Meio Ambiente, presidida por Gandini, que Estações de Tratamento de Esgoto funcionam de forma irregular no município, e pôs em xeque análises feitas por empresa responsável em tratar o esgoto no município

“Estamos estarrecidos com a proposta (da Cesan) de lançar efluente no mar. É preocupante! Nós não fomos notificados disso. Soubemos que foi apresentado ao Ministério Público, que não é o fórum de discussão”. A afirmação, em tom de crítica e desabafo, é do secretário de Meio Ambiente da Serra, Cláudio Denicoli.

“Estamos estarrecidos com a proposta (da Cesan) de lançar efluente no mar. É preocupante!”, disse o secretário da Serra, Cláudio Denicoli.

O secretário contou que encaminhou ofícios aos órgãos de controle, mas fez um alerta: “Se fizermos isso, esquece nosso turismo. Esquece nossas praias de Manguinhos, de Balneário Carapebus. É uma situação absolutamente preocupante!”

A Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) estuda usar um método chamado de emissário submarino, que apresentou ao Ministério Público da Serra. Ele consiste em um sistema de estações de bombeamento que levarão o esgoto da cidade até uma estação em Jacaraípe, onde ele seria tratado e levado, então, por uma tubulação de um quilômetro até o fundo do mar.

As críticas de Denicoli à Cesan e à Ambiental Serra, empresa que atua no município por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) para operar e ampliar o sistema de esgotamento sanitário, ocorreram durante a reunião da Comissão de Proteção ao Meio Ambiente, na última quinta-feira (6), na Assembleia Legislativa.

O encontro, que foi organizado pelo presidente da Comissão de Meio Ambiente, deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania), tratou das constantes reclamações dos moradores, que afirmam que a água distribuída no Estado é de má qualidade (barrenta ou salobra), há falta de abastecimento e de saneamento básico nos municípios.

No momento da sua fala, o secretário surpreendeu a plateia – formada por representantes da Cesan, do Ministério Público, autoridades, vereadores, secretários municipais e ambientalistas – e não poupou críticas à empresa pública, apesar da parceria entre o governo do Estado e o prefeito Sergio Vidigal (PDT).

“Essa PPP da Serra começou em 2013 e não vimos melhorias no tratamento de esgoto. A previsão da Serra é até 2043 ter um milhão de habitantes. Se o sistema está colapsado hoje, imagina daqui a 20 anos. As 21 estações de tratamento são obsoletas. A Cesan nunca admitiu que tem um problema, sempre tenta desqualificar a gente”, lamentou.

LABORATÓRIO
Por essa razão, segundo Denicoli, a prefeitura da Serra contratou um laboratório de São Paulo para fazer as análises, cujos resultados são bem diferentes dos apresentados pela Cesan e pela Ambiental Serra que, segundo ele, também fez coletas, porém “por meio de um servidor da própria empresa, sem a menor qualificação, critério e desrespeitando a metodologia do que recomenda a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

“Fizemos uma (análise) em dezembro, no período chuvoso, e outra que sairá o resultado agora, que certamente será pior. Das 21 estações de tratamento, oito sujam o esgoto. Nossos rios não comportam mais essa carga orgânica. Foi feito o contrato de programa para o lançamento de oito Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Nenhuma delas tem outorga. Todas estão operando de forma irregular”, denunciou o secretário.

Para citar um exemplo, Denicoli afirmou que a ETE de Manguinhos, que é a “melhor estação”, lança o dobro da carga orgânica que a Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agehr) autorizou, e que, por isso, as lagoas estão tomadas por plantas aquáticas, como taboa, gigoga e alface d’ água, por causa do excesso de nutrientes.

“Num futuro bem próximo, não teremos nem lâmina d´água mais. A carga é de mil litros de esgoto por segundo sem tratamento. Nossa melhor ETE tem 40% de eficiência. Há outra que trabalha com 15%. A Ambiental Serra não tem outorga para lançar e não sabe o que fazer com as ETEs”, insistiu.

Denicoli afirmou que a solução é investir em tecnologia nas estações que existem lá, mas que isso não tem sido feito. Segundo ele, “o investimento da PPP há 10 anos é em redes coletoras porque a empresa arrecada 80% da rede que está na frente do usuário”.

O secretário se disse pressionado a multar o usuário que não se liga à rede. “Como eu multo uma casa em que as pessoas vão pagar por um esgoto que vai ser sujo pela estação de tratamento? Eu tenho provas disso”, garantiu.

Ao concluir a sua fala, Denicoli relembrou a proposta da Cesan e fez uma indagação: “Como lançar o efluente a um quilômetro no mar? Mesmo que isso fosse dar certo, não há estudo! E se essa fosse a solução, vamos continuar lançando mil litros de esgoto sem tratamento nos nossos mananciais? E a nossa captação de água, como vamos fazer?”

Denicoli pediu a revisão do contrato com a PPP no município e cobrou mais diálogo da Cesan com a prefeitura.

Empresa pede prazo para averiguar resultados
O diretor de Engenharia e Meio Ambiente da Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan), Pablo Andreão, por sua vez, confirmou que recebeu os relatórios da prefeitura da Serra, e pediu um prazo, até o final do mês, para avaliar os resultados e encaminhar uma resposta.

“Se identificadas inconformidades, vamos ter que tratar”, enfatizou, sem responder a todos os questionamentos feitos pelo secretário de Meio Ambiente da Serra, Cláudio Denicoli.

Pablo fez uma explanação sobre a atuação da Cesan, informou que a companhia atua em 53 municípios capixabas, atendendo 73% da população (cerca 2,5 milhões de pessoas), com 100% de cobertura de água e 77% de cobertura de esgoto.

Segundo ele, são 92 Estações de Tratamento de Água (ETAs) e 101 de esgoto (ETEs) operando 24 horas por dia.

“Desde 2018, a média era de R$ 250 milhões em investimentos da Cesan por ano. Em 2021, de R$ 386 milhões. Em 2022 foram R$ 648 milhões. Em 2023, até junho, foram R$ 399 milhões. A projeção é de R$ 834 milhões”, afirmou.

Presidente de Comissão vai à Justiça
O presidente da Comissão de Proteção ao Meio Ambiente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania), disse que tomou algumas iniciativas a partir do resultado do encontro para discutir a qualidade da água e a falta de saneamento. Um deles é o de acionar o Poder Judiciário.

Presidente da Comissão de Proteção ao Meio Ambiente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Fabrício Gandini.

“A comissão vai acionar o Judiciário para fazer as análises independentes, para tirarmos qualquer dúvida sobre a qualidade da água na Serra. Também solicitei à Agehr (Agência Estadual de Recursos Hídricos) cópias das outorgas das estações de tratamento da Serra, assim como dos licenciamentos junto ao Iema (Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos)”, declarou.

Em relação à prefeitura de Vitória, Gandini solicitou os dados por território das doenças relacionadas à questão da água. Durante o encontro, o biólogo André Capezzuto informou que existem estações que foram desmobilizadas na capital, como a do bairro Resistência, mas que só servem para acumular mosquitos porque não foi feita uma desmobilização sustentável.

Por fim, com o voto dos deputados Callegari (PL), Janete de Sá (PSB) e Iriny (PT), membros da comissão, houve a reconvocação do diretor-presidente da Cesan, Munir Abud, que mais uma vez não compareceu, apesar de ter marcado a data.

“Ele (Munir) foi reconvocado. Não abrimos mão da presença dele. O homem público deve prestar contas à sociedade!”, declarou Gandini.

fotos Lucas Costa/Assembleia Legislativa