Higienização de alimentos e contaminação cruzada

today10 de abril de 2020
remove_red_eye866

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), os alimentos em si não apresentam risco de transmissão do novo coronavírus, já que para ocorrer o contagio é necessário um hospedeiro animal para a multiplicação do vírus. Entretanto, a maneira em que embalagens e alimentos são manipulados pode sim apresentar perigo, a chamada contaminação cruzada: no caso de um vírus, temos um agente biológico que pode ser transferido, por um vacilo na hora de manusear, para um alimento que não tinha perigo. 

Mas se por um lado é importante adotar algumas medidas de prevenção e higienizar corretamente os alimentos para evitar o desenvolvimento de agentes como vírus, bactérias ou fungos, por outro lado, ao proceder com a limpeza, é preciso cuidado para que os materiais usados não acabem causando a contaminação química da comida.

Conforme a nutricionista Flávia Barbosa, Especialista em Vigilância Sanitária e Mestre em Saúde Coletiva pela Ufes, medidas simples como lavar bem as mãos, não falar ou tossir em cima dos alimentos, superfícies ou utensílios utilizados para preparar os produtos são de extrema importância. Ademais, Flávia orienta sobre os cuidados que devem ser tomados quando compras e entregas chegam em casa. 

Chegou em casa com as compras
Segundo a nutricionista, o mais adequado é colocar as sacolas com os produtos em um local afastado e com menor circulação de pessoa. Em seguida retirar os produtos das sacolas e lavar, como se lavam louças, com sabão e água, as embalagens que possam ser lavadas. 

“Partindo do princípio que o ambiente da casa, especialmente a cozinha, onde fica armazenada a maioria dos produtos comprados no supermercado, não é necessário secar as embalagens, bastando deixá-las secar naturalmente. No caso de secá-las, de preferência, fazê-lo com papel toalha. Fora isso, os cuidados gerais: evitar tocar em locais (como maçanetas, interruptores) que as demais pessoas da casa toquem rotineiramente e, se fizer, desinfetar com solução clorada ou álcool a 70%”, explica.

Flávia orienta ainda que se evite entrar em casa com os sapatos e a “roupa da rua”, tentar tomar banho assim que chegar e colocar a roupa usada para lavar.

No caso de compras entregues pelo estabelecimento a dica é de manter um afastamento recomendado do entregador, de no mínimo 1,5 metros e dar preferência aos pagamentos por cartão.

Sobre as sacolas, nesse momento de pandemia, a melhor opção é não reutilizá-las e descartá-las.

Forma correta de higienizar frutas, legumes e verduras
“Costumeiramente, independente da pandemia, a regra para higienização de alimentos como frutas e hortaliças é: retirar as partículas de impurezas maiores, como terra, bichos, fiapos. Lavar os alimentos em água corrente”, lembra a especialista. 

Colocar o alimento totalmente em solução clorada é o mais indicado. Basta diluir 1 colher de sopa de hipoclorito de sódio (pode ser água sanitária comprada em mercados, própria para alimentos) em 1 litro de água, deixando o produto agir por 15 minutos. Após esse tempo, retirar os produtos da solução e enxaguá-los em água corrente abundante. 

“É importante seguir a diluição adequada, que é a mais própria para promover a desinfecção dos alimentos, bem como é necessário o enxágue adequado, para evitar sobrarem resquícios do produto químico no alimento, podendo ocasionar contaminação química, culminando com a intoxicação de quem consumi-lo”, alerta a entrevistada.  Também existem produtos próprios para higienização desses alimentos, geralmente expostos próximos ao setor de hortifrutigranjeiro, sendo fundamental seguir as recomendações de uso do fabricante.

Vegetal cru: cozinhar ou não?
Fazendo a higienização, não há problemas em consumir o alimento cru, defende. “Cozinhar é uma opção, mas não pela contaminação por coronavírus. Este organismo não sobrevive ao tempo de contato com o hipoclorito de sódio, na concentração indicada”, aponta.

Com e sem casca: higienização x intoxicação
A nutricionista ressalta que como a virulência e a resistência no ambiente do coronavírus não são totalmente conhecidas, o mais seguro é a higienização de todos os alimentos, ainda que sejam consumidos sem a casca.  

“Para manter a integridade e a qualidade sensorial de alguns alimentos que podem sofrer alterações devido à higienização prévia ao armazenamento, como é o caso de pêssegos, morangos, folhas verdes, ovos (este último, especialmente, não deve ser higienizado para ser armazenado, sob pena de contaminação microbiana), uma opção é acondicionar os alimentos em uma embalagem limpa, como sacolas plásticas de primeiro uso próprias para alimentos ou vasilhames com tampa e higienizar antes do uso”, afirma.

Produtos ensacados
A limpeza dos produtos secos, como é o caso de ensacados – arroz, feijão, macarrão -, pode ser feita com uso de água e sabão. Outra opção segundo Flávia é transferi-los para vasilhames. “Para se ter mais segurança é necessário sim limpar todas as embalagens”, reforça. 

Preparo de carnes
Aqui a orientação quanto às embalagens é a mesma dos outros produtos. Já na manipulação da peça animal, a profissional indica que seja feita em ambiente e utensílios previamente higienizados e, preferencialmente, o mais próximo ao consumo.

Por Kissila Mel
Arte Lucas Albani