Quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Brasil tem 2,4 milhões de autistas. Mas as escolas estão preparadas para ensiná-los?

today13 de agosto de 2026
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Seminário da Federação das Apaes do Espírito Santo reuniu mais de 200 profissionais para transformar o discurso sobre inclusão em estratégias concretas de aprendizagem

No Brasil, 2,4 milhões de pessoas têm diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população, segundo o Censo 2022. Diante desse cenário, uma pergunta se torna cada vez mais urgente: as escolas sabem como alfabetizar uma criança autista, ensinar matemática, prevenir uma crise ou ajudá-la a comunicar o que sente?

Essas foram algumas questões presentes no seminário “Práticas Pedagógicas no AEE: Avaliação, Intervenções e Estratégias Educacionais para o TEA”, promovido pela Federação das Apaes do Espírito Santo (Feapaes-ES) e que reuniu mais de 200 professores, pedagogos e gestores das Apaes capixabas, em Vitória.

O encontro partiu de uma provocação direta: garantir a matrícula não significa, por si só, garantir inclusão. Para que o estudante participe, aprenda e desenvolva autonomia, a escola precisa de conhecimento especializado, avaliação individualizada e intervenções respaldadas por evidências.

“Não existe inclusão escolar verdadeira sem que o professor tenha conhecimento especializado para compreender as necessidades do estudante e adotar estratégias adequadas de ensino”, afirmou o pesquisador Lucelmo Lacerda de Brito, uma das principais referências brasileiras em Educação Especial para pessoas com autismo.

Em sua palestra, Lucelmo defendeu que o debate precisa ultrapassar os discursos genéricos de valorização das diferenças e chegar às situações enfrentadas diariamente nas salas de aula.

“A gente não quer mais saber apenas que somos todos iguais. A gente quer saber como alfabetizar a criança autista, como ensinar matemática, como lidar com uma crise, o que fazer quando a criança tem um problema emocional”, destacou.

Em sua apresentação, Lucelmo destacou ainda o papel estratégico do Atendimento Educacional Especializado (AEE) na orientação e supervisão dos profissionais de apoio escolar, apresentando estratégias educacionais que podem ser incorporadas à rotina escolar, como: o uso de recursos visuais para antecipar atividades, a oferta de escolhas, o reforço positivo, a utilização dos interesses do estudante e a avaliação da função dos comportamentos desafiadores.

“O AEE atua de forma complementar à escolarização, identificando barreiras e desenvolvendo recursos e estratégias que favoreçam a autonomia, a participação e a aprendizagem dos alunos público-alvo da Educação Especial. Nesse trabalho, são considerados não apenas as características e os desafios do estudante, mas também o ambiente, os recursos disponíveis e as práticas adotadas pela escola”, reforçou o pesquisador.

Comportamento também é comunicação
A relação entre comunicação, linguagem e comportamento foi aprofundada pela psicóloga Camila Nasser Mancini, mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Durante a palestra, ela chamou a atenção para a necessidade de compreender o que uma atitude pode estar comunicando antes de classificá-la apenas como agressividade, desobediência ou recusa.

“Todo comportamento comunica alguma coisa. Quando uma criança é agressiva, por exemplo, pode ser porque ainda não desenvolveu repertório de vocabulário, comunicação verbal ou gestual para explicar o que está sentindo”, explicou.

O psiquiatra Gabriel Silva Pereira Bessa Couto também abordou o manejo comportamental e a autorregulação emocional no contexto escolar. Entre as estratégias apresentadas estiveram a antecipação de mudanças, a organização de rotinas previsíveis, o uso de instruções objetivas, a redução de estímulos, o reforço de pequenos avanços e a criação de espaços e momentos de regulação.

Gabriel ressaltou que, durante uma crise, a criança pode perder temporariamente a capacidade de organizar ideias, controlar impulsos e conversar racionalmente. Por isso, discutir, gritar ou aplicar longos castigos tende a não produzir aprendizagem. O caminho passa por garantir segurança, reduzir estímulos e retomar o diálogo quando houver equilíbrio emocional.

Ele também reforçou a importância da atuação conjunta entre família e escola. “Quando a família e a escola falam a mesma linguagem, a criança evolui mais rapidamente. O aluno não precisa de uma professora perfeita, mas de uma equipe escolar que continue tentando compreender suas necessidades. Cada pequena evolução merece ser celebrada”, destacou.

Autonomia precisa ser ensinada
O desenvolvimento das habilidades sociais como ferramenta de autonomia foi o tema da palestra do doutor em Educação Especial e coordenador da Federação Nacional das Apaes (Fenapaes), Luiz Fernando Zuin.

Segundo o especialista, habilidades como comunicar necessidades, fazer escolhas, lidar com conflitos, pedir ajuda e expressar sentimentos devem integrar o planejamento pedagógico. Para isso, é necessário avaliar o repertório de cada estudante, identificar quais competências ainda precisam ser desenvolvidas e, principalmente, verificar se ele teve oportunidades e suporte adequados para aprendê-las.

Zuin ressaltou que respeitar as especificidades das pessoas com deficiência intelectual, deficiência múltipla e autismo é fundamental para garantir avanços que ultrapassem o ambiente escolar. “Todo mundo sonha. E nós precisamos sonhar com esse estudante, capaz de assumir papéis cada vez mais importantes na própria vida. Quando a Apae promove sua inclusão no mundo do trabalho e nos espaços de convivência social, está ajudando a construir esse futuro”, afirmou.

Para o diretor social da Feapaes-ES, Vanderson Gaburo, o seminário reforça o compromisso da rede com a formação de seus profissionais e o aprimoramento do atendimento oferecido aos estudantes das Apaes.

“Acreditamos que a educação transforma vidas e amplia oportunidades. E como fazemos transformação social todos os dias nas Apaes? Qualificando cada vez mais os nossos profissionais e aperfeiçoando nossas estratégias de atuação, com práticas e caminhos para melhorar, cada vez mais o atendimento aos assistidos”, afirmou Vanderson.

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